Estudo associa anomalias de temperatura à expansão da doença; especialistas também alertam para riscos ligados a enchentes e secas.
As mudanças climáticas estão associadas à expansão da dengue no Brasil. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado pela Agência Brasil em 25 de outubro de 2026, identificou que as microrregiões com níveis epidêmicos da doença passaram de 110 para 292 entre 2006 e 2024. As anomalias de temperatura foram o indicador climático que melhor explicou o aumento da incidência no longo prazo.
O avanço aparece no Rio Grande do Sul, onde o primeiro caso adquirido no próprio estado só foi registrado em 2007. Em 2024, foram quase 210 mil infecções confirmadas e 281 mortes. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam ainda riscos de outras doenças infecciosas após enchentes e secas.
O que são mudanças climáticas e quais são suas causas
Mudanças climáticas são alterações duradouras no clima da Terra, que incluem o aquecimento global e seus efeitos sobre chuvas, secas e outros fenômenos. Segundo o material de referência sobre o tema, a elevação atual da temperatura global é impulsionada principalmente por atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis.
Essas atividades, assim como o desmatamento e certas práticas agrícolas e industriais, liberam gases que retêm calor na atmosfera. Entre os efeitos descritos na referência estão o aumento de eventos climáticos extremos e os riscos à saúde.
Como as mudanças climáticas afetam a dengue no Brasil
A dengue alcançou níveis epidêmicos em uma parcela maior do território brasileiro. De acordo com a Fiocruz, as microrregiões nessa situação passaram de 110, em 2006, para 292, em 2024; ao fim do período, elas representavam 54% do total. Nas demais, a incidência era de média a baixa, com risco esporádico ou incerto.
Microrregiões brasileiras segundo os níveis de incidência da doença.
- 110Nível epidêmico em 2006Microrregiões brasileiras
- 54%Nível epidêmico em 2024Parcela das microrregiões
- 46%Demais microrregiõesIncidência de média a baixa
| Ano | Microrregiões com níveis epidêmicos de dengue |
|---|---|
| 2006 | 110 |
| 2024 | 292 |
Os pesquisadores apontaram a frequência de temperaturas muito diferentes das habituais para cada local como o indicador climático mais relacionado ao avanço da doença no longo prazo. O estudo não atribui cada surto isolado exclusivamente ao clima.
Por que o calor favorece o mosquito da dengue
O calor e a umidade favorecem o Aedes aegypti, mosquito que transmite a dengue. Segundo o infectologista Celso Granato, seus ovos podem permanecer na natureza por anos e eclodir quando encontram condições de umidade e temperatura alta. O calor também altera o gasto de energia dos mosquitos adultos e sua necessidade de se alimentar.
Em 2024, o Rio Grande do Sul registrou mais casos confirmados e mortes por dengue do que a Bahia, apesar de esta ter, segundo a Agência Brasil, cerca de 3 milhões de habitantes a mais. Os dados mostram a dimensão da doença em um estado onde o clima antes dificultava sua transmissão.
| Estado | Casos confirmados em 2024 | Mortes em 2024 |
|---|---|---|
| Rio Grande do Sul | Quase 210 mil | 281 |
| Bahia | Cerca de 163 mil | 188 |
Quais doenças podem aumentar após enchentes e secas
Enchentes podem ampliar a exposição à leptospirose e a agentes que contaminam água e alimentos. Granato explica que a urina de ratos pode se espalhar com a água das inundações; a mistura da enxurrada com esgoto também traz risco de infecções gastrointestinais e hepatite A.
Nas secas, incêndios podem levar pequenos mamíferos a se aproximarem de casas, segundo o infectologista. Ele cita como preocupação o hantavírus: desde 2016, o Brasil confirmou 530 infecções e 212 mortes. A fonte apresenta esse deslocamento de animais como um risco associado a queimadas, não como explicação para todos os casos registrados.
Que outras infecções preocupam os especialistas
A febre do Oropouche se espalhou para além da Região Amazônica, onde circulava quase exclusivamente até 2023. Segundo a Agência Brasil, a doença causou mais de 12 mil infecções em 2025, em 23 estados e no Distrito Federal. A relação dessa expansão com o clima ainda está sob investigação; especialistas consideram também a degradação ambiental.
A professora Sarah Gonçalves Tavares, da Universidade Federal do Espírito Santo, alerta que mudanças ambientais podem favorecer a adaptação de fungos capazes de causar doenças. Entre os exemplos citados está a Candida auris, associada a surtos em unidades de saúde e especialmente preocupante para pessoas imunodeprimidas. O primeiro registro de infecção por esse fungo no Brasil ocorreu em 2020, na Bahia.
Foto de capa: Donatas Dabravolskas/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)




